29/05/2012

Só sei dançar com você.

Esse não é só mais um texto de amor. É bastante do que eu gostaria de te dizer. Na verdade, é sim um texto de amor, mas na categoria amor-que-não-quero-aceitar-que-seja-póstumo. Mais naquela parte em que o sentimento pleno e doce, fica um pouco mais atordoado e amargo. Não fica ruim, mas um pouco mais dolorido.
Esse não é só mais um texto de amor. É o meu coração se abrindo depois de passar pelos prantos. É tudo aquilo que eu acreditei, se desmoronando. E agora, tá cada vez mais dolorido.
Esse não é só mais um texto de amor. É um pedido, uma revolta, um choro soluçado e um vazio desesperador que pede pra você ficar. Pede pra você voltar. E nunca mais me deixar. É o apelo de alguém que cansou de ser sozinha e quer dividir algo além de um livro com você. Eu quero dividir um domingo preguiçoso. Uma cama. Uma casa. Um Rex, nosso Rex. Uma vida. Só pra ver se deixa de ser tão dolorida a sua ausência.
02/03/2012

Capítulo I.

Ele me olhava por detrás da porta, achando que eu não conseguia vê-lo. Estava enganado, afinal, como uma mulher de frente ao espelho pode não ver além de seu reflexo. Como ele mesmo costumava dizer, espelhos são um jogo perdedor, eles só mostram o contrário de qualquer maneira.
Eu fingia não saber que ele estava ali, pela graça de vê-lo me observar, tão simples, gentil, quase dócil.
Então ele se aproximou devagarzinho e agora, os fingimentos de saber ou não saber o que víamos haviam desaparecido.
- Você está bonita hoje. - Ele disse colocando a mão em cima dos meus ombros e pousando a cabeça em cima de um deles. Lembro da primeira vez que fez esse mesmo movimento. Éramos crianças e brincávamos no parquinho. Eu era a princesa, vestida com as roupas de minha mãe e ele, o príncipe cavalheiro, com sua espada de plástico.
- Você está mentiroso hoje. - Ai, como detestava que contestassem sua verdade e duvidassem de suas opiniões. Antes que ficasse furioso logo retomei a fala. - É brincadeira. Obrigado.
- Ah bom, muito bom. Achei que começaríamos o dia com o pé esquerdo. Porque essa é você agora, sempre com o pé esquerdo. - Como já era esperado, seu tom de voz que antes fora sutil, agora havia se elevado e se tornado um tanto rude.
- Já disse que é brincadeira. Nós não precisamos retomar aquilo que começamos ontem à noite. Chega de discussões.
- Por mim tudo bem, mas, acho que você deveria pensar várias vezes antes de começar a falar. Esse é sempre nosso motivo de briga.
- Eu já sei que sou errada, e prometo meu silêncio de agora em diante. Digamos que falarei o indispensável e nada além do necessário. - Acho que naquele momento eu tinha começado meu momento naturalmente dramático, despercebida. Acho que tinha jogado ele contra a parede, sem ao menos tocá-lo. Sua face ficou pálida, imóvel, como se fosse culpado de tudo que tinha acabado de acontecer e antes acontecido.
- Mas... Não quis dizer isso. Quer dizer... Eu quis. Mas não me expressei bem. Você me conhece, eu faço tudo errado e... Desculpe. Eu não pensei antes de falar. Deve ser alguma coisa contagiosa, resta saber quem de nós dois ficou doente primeiro. - Ele riu, desconcertado, tentando cortar a tensão que acabara de tomar conta daquele minúsculo quarto branco.
- É... Pode ser. Mas eu estava pensando e... Eu estou com saudade do que costumávamos ser. As memórias são tão boas. Eu não sei se fantasiei tudo, ou se as coisas eram realmente melhores antigamente, ou se eu estou errada, ou se você está errado, ou se eu estou falando loucamente sem parar e fazendo você se confundir. - Respirei aliviada. Tive um daqueles momentos em que esqueci completamente com quem estava falando e só falei, falei, falei, ininterruptamente. Ele me olhava anestesiado, mas riu quando ouviu a última sentença.
- Sim, nós já fomos melhores. - Ele se aproximou e me abraçou ternamente - Mas mudamos. Você não fantasiou, as coisas são tão boas agora quanto eram antes, mas estamos desgastados e desgaste é o sinal de uma relação saudável. Se fôssemos perfeitos e exatos, teríamos por aí a fora alguns outros parceiros. Acho que somos o suficiente e estamos melhorando, mesmo que para melhorar, nós pioramos um pouquinho. Você está errada, eu estou errado, todos estão errados. Mas o melhor a fazer é aceitarmos nossos erros. Quero aceitar junto com você e melhorar junto com você. - Me correu uma lágrima pelo rosto assim que ele disse "suficiente". Sempre achei "suficiente" uma palavra pequena e que não conseguia comportar tudo o que eu queria ser. Ser o suficiente não era bom.
- Suficiente? Isso é tudo o que somos hoje? - Tentei fazer soar o mais doce possível pra que não iniciássemos mais uma de nossas guerras.
- Sim, somos o suficiente. Tudo o que você não pode ser, você é pra mim. Tudo que você queria ser, você é pra mim. Tudo o que você não vai ser, você já é pra mim. E se isso não me serve, se não me é suficiente, já não sei mais o que pedir. - Ele foi incisivo, certo e disse o que eu não sabia que precisava ouvir.
Nesse dia, eu saí e deixei a porta aberta, não me importei com o horário que chegaria em casa, não me importei em ligar, não quis saber de nada.
Eu sabia que quando voltasse ele estaria lá, e tudo estaria bem. Nós éramos tudo o que precisávamos.

Dois.

Eu me divido em duas. A superficial e a potencial. Quem eu reluto em aceitar e quase abomino, e quem eu tenho orgulho e um tanto de medo.
Eu me divido em duas. Duas partes, duas pessoas, dois corações, dois pensamentos, dois momentos. E isso dói. Dói saber que não posso ser uma só, para conseguir seguir em frente. Ser dois dá trabalho. Se manter dois, dá mais ainda.
Eu me divido em duas. E não é motivo de orgulho. Eu diria com riso no olhar que é motivo de internação ou busca de ajuda psicológica, porque, ser duas não deve fazer bem pra ninguém. Quem é que consegue ser um em tempos como esses?

Mas não, eu não. Eu não me contento com pouco, com o mínimo, com o um, com o único. Eu quero mais, mesmo que não possa suportar, mesmo que não consiga manter, mesmo que não faça sentido algum, eu quero dois.
E assim vou sendo, dois. A soma perfeita de um e um. A busca incessante do mais. O brilhantismo de poder ser além.
Dois.